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Competições Europeias

Jéssica Silva: “Eu não jogo só por mim, mas por uma nação”

Numa entrevista concedida ao Remate Digital após a conquista da Liga dos Campeões, Jéssica Silva falou sobre esse momento épico da sua carreira vivido no domingo, deste primeiro ano na “melhor equipa do mundo”, da lesão que está a ultrapassar, bem como do futuro e respectivos objectivos.

RD: De que forma avalias esta temporada no Lyon?

Jéssica Silva: O primeiro ano num clube, numa cidade nova é sempre um primeiro ano de adaptação, foi um ano em que tive de me adaptar a novos hábitos, a novos métodos de treino, a uma nova metodologia de treino, com mais intensidade, a adquirir a dinâmica da equipa, mas correu tudo muito bem. Acho que adquiri essa dinâmica muito rapidamente, quer no campo quer no balneário, houve muita empatia entre mim e as minhas colegas, foi algo que aconteceu muito rápido também, o que facilitou todo este processo, claro que gostava de ter jogado muito mais tempo, gostava de ter tido mais oportunidades, mas já sabia que vinha para a melhor equipa do mundo em que, penso que jogam as melhores jogadoras do mundo na minha posição e por isso sinto uma evolução e um crescimento muito grande como jogadora. Foi um ano bastante positivo, uma época em que ganhei muitos títulos, e eu vim para o Lyon para conquistar títulos coletivos, era o meu grande objetivo e consegui, por isso acaba por ser uma primeira temporada muito positiva, e estou muito feliz. Quero recuperar o mais rápido possível para poder juntar-me às minhas colegas.

RD: Qual foi a sensação de conquistar a Liga dos Campeões? 

Jéssica Silva: É a melhor sensação do mundo, sem dúvida alguma que quando se chega a este nível, não se pensa noutra coisa, porque a Liga dos Campeões é a melhor prova ao nível de clubes e poder ganhá-la à primeira vez é uma sensação fantástica. O facto de ser a primeira jogadora portuguesa a conquistá-la, torna este feito ainda mais especial, e estou obviamente muito feliz porque foi sem dúvida uma grande conquista na minha carreira, mas não podemos parar por aqui, por isso espero conquistar muito mais troféus dentro de campo. Ainda estou a sentir a felicidade que esta vitória me proporcionou, não consigo descrever muito bem aquilo que estou a sentir, mas quem fala comigo diariamente, e quem me conhece sabe perfeitamente que me sinto a maior felizarda deste mundo, porque é uma grande conquista para mim e para a minha carreira, e que vai ficar na minha memória para sempre porque foi a primeira grande vitória.

RD: Em que ponto está a tua lesão? Como tens lidado com essa adversidade?

Jéssica Silva: Estou a finalizar o meu processo de recuperação e tem corrido tudo muito bem. A evolução está a ser muito boa, quero voltar rapidamente ao campo e juntar-me à equipa, mas ainda falta algum tempo. No entanto, espero poder voltar já durante este mês de setembro, e tudo indica que sim, para que em outubro consiga estar na máxima força ou pelo menos, com uns índices competitivos positivos. Tenho lidado com a adversidade de uma forma positiva, tenho de ter um pensamento sempre positivo até mesmo por causa do processo de recuperação da lesão. As coisas estão a correr muito bem, é lógico que existem uns dias melhores que outros, mas é importante ter a cabeça no lugar para lidar com isto tudo. Claro que custa ver as minhas colegas a jogar, mas também devo dizer que a questão da pandemia é má para toda a gente como é óbvio, mas para um jogador profissional é muito complicado pela questão da competição. Ainda assim sinto que para mim por exemplo foi benéfico, porque podia ter perdido muitos mais jogos do que aqueles que perdi, e acabo por digerir toda a situação de uma forma diferente, porque estar lesionada e não poder dar o meu contributo à equipa, é muito complicado a nível psicológico, mas o facto de o futebol ter estado tanto tempo parado, ajudou a aguentar as saudades.

 

RD: Na próxima época vais continuar no Lyon?

Jéssica Silva: Sim, tenho mais um ano de contrato e ainda estou na fase de recuperação. O que mais quero neste momento, e para mim é mais uma grande conquista para este ano, é recuperar bem da lesão, e readquirir todos os índices físicos para poder representar tanto o Lyon, como a Seleção Nacional. Por isso, estou muito focada nesse objetivo, porque quero voltar a jogar e a estar na minha máxima força o mais rápido possível

RD: Quais são os teus maiores objectivos tanto a nível de clubes como na Selecção Nacional?

Jéssica Silva: Os meus maiores objetivos tanto no Lyon, como na Seleção Nacional, é voltar a ganhar títulos, é continuar a marcar presença em grandes competições, marcar a diferença nos grandes jogos, e ver a minha qualidade ser reconhecida por todos. Quero que as pessoas percebam que não é só a Jéssica Silva que está ali, é um país inteiro que tem qualidade e talento, e quero inspirar outras jogadoras e jogadores a serem os melhores, porque o nosso futebol tem uma palavra a dizer no futebol mundial. Há uns dias fui eu a primeira portuguesa de sempre a conquistar uma Liga dos Campeões, mas tenho a certeza absoluta que se continuarmos a trabalhar assim, se as nossas jogadoras forem ambiciosas, tenho a certeza que vão existir muitas mais jogadoras portuguesas a conquistarem esta competição e a estarem em todas as grandes competições. Como costumo dizer, eu não jogo só por mim, mas sim por uma nação, porque acredito que o futebol feminino em Portugal, tem capacidade para fazer muito mais, porque existe muito talento. O meu desejo é que mostrem esse talento, para que o nosso futebol seja capaz de conquistar o mundo. Ao nível da Seleção Nacional, o meu objetivo é já a fase de qualificação que vai decorrer maioritariamente em 2021, mas que começa já em 2020, visto que o Europeu foi cancelado para o ano de 2022, e esse é sem dúvida o grande objetivo não só meu mas também da nossa seleção, estarmos no Europeu de 2022, porque merecemos lá estar sem dúvida nenhuma.

RD: O que falta ao futebol feminino português para atingir outros patamares?

Jéssica Silva: Faltam algumas coisas ainda, assim como faltam em muitos outros países, mas realmente começámos ligeiramente mais tarde, e temos um longo caminho a percorrer. De qualquer forma, vejo com bons olhos aquilo que vai acontecendo em Portugal, sinto que há um maior investimento quer por parte dos clubes quer por parte da Federação nesta modalidade, há uma maior preocupação em dar todas as condições às jogadoras para que possam evoluir e progredir, e para que exista toda esta evolução tem de haver interesse de todas as partes em apoiar a mulher no futebol. O percurso do futebol feminino ainda é longo, mas vejo com bons olhos toda a evolução e tento estar sempre atenta a tudo aquilo que se passa em Portugal, e espero que as jogadoras continuem a profissionalizar-se, mesmo que não existam grandes contratos, mas que existam sim condições e mecanismos de apoio para que possam desenvolver todo o seu bom futebol.

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