Mónica Mendes em entrevista ao Remate Digital

Na sequência das entrevistas que temos realizado relaccionadas com o futebol feminino, entrevistámos desta vez a Mónica Mendes.

A defesa do AC Milan abordou vários assuntos da sua carreira. Os primeiros passos, a passagem pelo 1º de Dezembro, as aventuras que tem tido no estrangeiro, os primeiros meses no Milan, a Selecção Nacional e o futebol feminino português em geral foram alguns dos assuntos abordados pela internacional portuguesa de 25 anos.

RD: Como surgiu a tua paixão pelo futebol e quando começaste a praticar a modalidade?

Mónica: A minha paixão pelo futebol já vem desde que nasci. Desde que me lembro, sempre joguei futebol. No entanto, comecei a treinar futebol numa equipa quando tinha 4 anos. 

RD: Ao serviço do 1º de Dezembro conquistaste 3 dobradinhas. O que significa para ti esse clube e qual a importância que teve na tua carreira?

Mónica: Para mim foi sem dúvida uma experiência que me ajudou muito a crescer quer como jogadora quer como pessoa. Até porque na altura o 1º de Dezembro era a melhor equipa de Portugal e era uma honra e privilégio representar um clube de enorme nome no futebol feminino português detentor de um palmares que ainda hoje o mantém como um dos melhores clubes de sempre na História do Futebol Feminino Português. 

RD: Na fase em que te mudaste para o estrangeiro era impossível em Portugal alguém viver apenas do futebol feminino sem ter de conciliar com um emprego?

Mónica: Sem dúvida. Mas, infelizmente, ainda hoje continua a ser assim e a realidade não mudou muito para a grande parte das jogadoras do campeonato português.

RD: Foi fácil a adaptação ao futebol norte-americano? Quais são as principais diferenças que encontraste?

Mónica: O futebol nos Estados Unidos é muito mais físico e consequentemente mais rápido que o futebol em Portugal. A intensidade nos treinos é completamente diferente e o treino em si é muito mais concentrado para a parte física da jogadora. 

RD: Seguiram-se passagens pelo Chipre, Noruega e Suíça. Como correram essas experiências? São, ou eram na altura, campeonatos superiores ao nosso?

Mónica: À excepção do Chipre, o qual tive uma passagem mesmo muito curta e não conheci o campeonato em si, quer a Noruega quer a Suíça têm um campeonato muito superior ao nosso em termos de competitividade. Ambas as experiências correram muito bem. Consegui ganhar o meu espaço, joguei sempre com muita frequência e isso ajudou-me e muito no meu desenvolvimento como jogadora. Na Suíça conseguimos derrotar a campeã em titulo e a atual, Zurich, e fazer um enorme feito em fazer a dobradinha. 

RD: Como avalias a temporada anterior ao serviço do Brescia?

Mónica: Foi uma temporada de sonho com um final triste. No entanto foi recheada de sucesso: campeãs da supertaça de Itália, vice-campeãs Nacional, vice-Campeãs da taça de Itália e conseguimos chegar até aos 8-avos de final da Liga dos Campeões. 

RD: O Milan adquiriu neste verão os direitos do Brescia. Como tem corrido esta experiência nos “rossoneri”?

Mónica: O AC Milan, como clube, é um dos mais conceituados a nível Mundial. Este ano, e muito bem, abriram o futebol feminino sénior. Temos condições de trabalho e um staff de excelência e é algo que temos todos aproveitado ao máximo para ter uma equipa forte e muito competitiva. Tem sido no fundo uma nova aventura que com o tempo dará de certeza os seus frutos. 

RD: Qual foi a sensação de estar presente na primeira participação de Portugal numa fase final de um Europeu?

Mónica: A primeira participação de Portugal numa fase final de um Europeu foi em 2012 com as sub-19. No ano passado foi a primeira vez a nível sénior e estar em ambos os grupos de jogadoras que tem conseguido escrever coisas muito importantes na história do futebol feminino Português foi, é e será sempre para mim uma honra, um orgulho e um enorme privilégio.

RD: O que falta ao futebol feminino português para atingir patamares superiores?

Mónica: Melhorar a competitividade do nosso campeonato e continuar a aumentar o número de praticantes em Portugal. A entrada dos grandes no futebol feminino português tem ajudado muito a que as jogadoras desses mesmo clubes tenham acesso a condições de trabalho que eu por exemplo nunca tive quando estive em Portugal. No entanto, ainda existem muitas equipas no nosso campeonato que só têm possibilidade de treinar 3 vezes por semana e essas mesmas jogadoras não têm acesso às mesmas condições de trabalho em comparação aos clubes grandes. E isso depois reflete-se quando jogamos a nível internacional porque os jogos são sempre de uma competitividade, exigência, e intensidade muito alta. 

RD: Tens alguma história engraçada ou caricata que tenhas vivido no mundo do futebol que nos possas contar?

Mónica: Tenho algumas. No meu último apuramento com as Sub-19 em 2012 senti que íamos conseguir ser apuradas para o Europeu. Mas isso nunca tinha acontecido e por isso mesmo ninguém acreditava no que dizia. Num dos dias, sonhei com algo que me fez sentir ainda mais que tudo aquilo que sentia ia acontecer. Contei a algumas colegas minhas e elas riram-se. Na última noite do apuramento antes do jogo contra a Bélgica, eu chamei as algumas das minhas colegas mais velhas ainda antes do recolher, e disse-lhes: eu sei que vocês não acreditam mas esta não é a última vez que estaremos juntas e amanhã vamos nos apurar para o Europeu. E elas só me diziam: lá estás tu Mónica. E eu respondi muito convicta: eu tenho a certeza que esta não é a última vez. A verdade é que no dia seguinte ganhamos à Bélgica 2-1 e tive o privilégio de ter feito o golo que apurou Portugal, a primeira equipa de futebol feminino de sempre, a estar numa fase final de um torneio e neste caso a ser a primeira equipa de sempre a jogar um Europeu com as nossas cores ao peito. Foi uma euforia inesquecível e um sentimento indescritível. 

RD: Quais são as tuas referências no futebol feminino e masculino?

Mónica: Admiro muito o Cristiano Ronaldo porque acho que é fenomenal. Mas não tenho nenhuma referência em particular. Valorizo muito todas as jogadoras que fazem imensos sacrifícios para poderem seguir o seu sonho de jogar futebol. 

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