Futebol Entrevistado: Dolores Silva

O Remate Digital lança a partir de hoje uma série de entrevistas que se focam no futebol feminino português.  Para começar entrevistamos a Dolores Silva que actualmente representa o Atlético de Madrid.

A modalidade está a crescer a olhos vistos, com os maiores emblemas nacionais, a assumirem um papel preponderante na projeção de várias atletas.

A internacional portuguesa de 27 anos falou um pouco sobre a sua carreira. Os primeiros tempos no 1º Dezembro, a aventura na Alemanha, o regresso a Portugal para representar o Braga, os primeiros meses em Madrid, a Selecção Nacional e claro, o estado do futebol feminino português foram os principais temas abordados.

RD: Como surgiu a tua paixão pelo futebol e quando começaste a praticar a modalidade?

Dolores: Desde muito cedo começou esta paixão. Lembro-me de ter 4 ou 5 anos e andar na cresce e na rua a correr atrás da bola. O meu pai alimentou desde aí o bichinho e à medida que fui crescendo foi quem me ajudou a dar os primeiros passos e entrar no clube onde morávamos, o Real Massamá. Desde que me lembro passava sempre muito tempo na rua a jogar com os amigos, na escola e com o meu pai sempre que tínhamos tempo juntos.

RD: Ao serviço do 1º de Dezembro conquistaste 5 campeonatos e 4 taças. O que significa para ti esse clube e qual a importância que teve na tua carreira?

Dolores: O 1° Dezembro vai ficar para sempre marcado na minha carreira, pois foi o clube que me lançou ao nível do futebol feminino e que me permitiu conquistar todos os títulos que existiam até altura. Foi quem me ajudou a ganhar visibilidade para também representar a selecção nacional. Para além disso, deu-me a oportunidade de trabalhar com referências do nosso futebol feminino. Terá sempre por estas razões e por toda a sua história um lugar especial.

RD: Jogaste seis temporadas na Alemanha. Como avalias essa experiência e quais foram as principais dificuldades e diferenças que encontraste?

Dolores: Ao início, como em todas as fases de adaptação foi um pouco mais complicado pela barreira da língua e pelo facto de após 2 meses com a equipa lesionei-me gravemente no joelho. Felizmente, consegui mais depressa do que pensava começar a entender e a falar, o que me ajudou muito, e graças a Deus tudo correu bem com a recuperação e pude desfrutar de mais 5 anos na Alemanha a jogar. Em 2 diferentes clubes, mas em ambos vivi experiências e momentos fantásticos, foi sem dúvida das experiências mais gratificantes como jogadora, porque me permitiu estar a jogar ao nível que tanto sonhei e, por outro, a nível pessoal. As grandes diferenças foram sem dúvida o nível e exigência competitiva da liga alemã.

RD: Podes contar-nos uma boa história dessa passagem pela Alemanha?

Dolores: Será difícil de escolher alguma, mas penso que uma que mais me marcou de tão divertida foi numa das pré-épocas que fazíamos com o clube, no ainda FCR Duisburg. Fomos de estágio uma semana para uma pequena ilha chamada Borkum que pertencia à Alemanha, e fizemos um Team Bildung com as jogadoras novas, na altura era também o primeiro ano das jogadoras portuguesas Laura Luís e Carole Costa no clube, e foi muito engraçado o que fizemos em equipa de praxe para todas elas. Ainda hoje nos rimos muito olhar para essas fotos e vídeos.

RD: Em Braga na temporada passada estiveram tão perto dos títulos… O que falhou ou o que faltou?

Dolores: O SC Braga defrontou sempre uma grande equipa o SCP e por vezes foram os detalhes que fizeram a diferença ou mesmo talvez a falta de um pouco de sorte. Faz parte do futebol, independentemente disso foi muito bom e ambas as equipas proporcionaram sempre jogos muito competitivos, ajudando a promover a modalidade no país.

RD: O que falta ao futebol feminino português para atingir patamares superiores?

Dolores: Profissionalizar a liga seria um passo muito importante, mas para isso é preciso verbas e que haja patrocínios que queiram investir em todos os clubes, de forma a criar mais condições e meios de sustentar os plantéis e até mesmo trazer mais jogadoras a jogar em Portugal, de forma a tornar o campeonato mais competitivo. A aposta dos clubes grandes tem sido também fundamental, espero que mais apareçam.

RD: Agora no Atlético, como está a correr a adaptação a Madrid e ao futebol espanhol?

Dolores: Por aqui tudo a correr bem. Estou adaptar-me e sinto-me muito feliz por estar numa grande equipa e clube, com jogadoras de topo. É um privilégio puder trabalhar e aprender com elas diariamente e disputar títulos e competições de grande nível. Era um grande sonho e objetivo para mim.

RD: Qual foi a sensação de teres feito parte da primeira participação de Portugal na fase final de um Europeu?

Dolores: Foi algo inexplicável, uma sensação única e um enorme orgulho. O sonho de qualquer jogadora é jogar pelo seu país e sobretudo numa fase final de uma competição importante a nível internacional é um grande sonho. Fazer parte dessa página da história do futebol feminino português foi uma responsabilidade e um orgulho muito grande, que oxalá se repita mais vezes.

RD: Quais são os teus objectivos para os próximos anos da tua carreira?

Dolores: Quero muito ganhar títulos com o meu clube e puder chegar o mais longe possível na Liga dos Campeões. A nível da seleção quero muito que consigamos a curto prazo voltar a estar num palco de uma grande competição internacional.

RD: Tens alguma história engraçada ou caricata que tenhas vivido no mundo do futebol que nos possas contar?

Dolores: Uma vez na Alemanha logo ao início, não entendia nada do alemão e então tinha de estar sempre a perguntar alguém que falasse inglês para traduzir, sobretudo os horários dos treinos. Aconteceu que um dia perguntei a hora do treino do dia seguinte e estava muito segura que tinha entendido uma hora, mas era só de tarde o treino. Como ninguém disse mais nada, havia um treino de manhã também nesse dia seguinte, mas eu acabei por faltar porque tinha só entendido que haveria de tarde. Acabei por faltar ao treino da manhã e foi muito caricato quando lá cheguei de tarde como se não se tivesse passado nada, perguntaram se tinha dormido bem de manhã, eu na inocência disse que sim, que estava tudo bem, depois contaram que tinham ido treinar de manhã e começaram-se a rir. Os treinadores também e acabaram por me desculpar porque era a primeira vez.

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